A situação no Irão continua extremamente tensa após quase três semanas de manifestações em grande escala, reprimidas com violência pelas autoridades. No entanto, as mais recentes declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, marcaram um ponto de viragem. Ao afirmar que os “massacres terminaram” e ao adotar um tom mais cauteloso quanto a uma eventual intervenção militar, o presidente dos Estados Unidos contribuiu para aliviar as tensões imediatas nos mercados provocando uma queda acentuada dos preços do petróleo.
Trump fala em acalmia, sem excluir a opção militar
Durante uma intervenção na Casa Branca, Donald Trump afirmou ter sido informado por “fontes muito importantes” de que a repressão violenta no Irão teria cessado. Segundo o presidente, as execuções de manifestantes que estariam previstas “não aconteceriam”. Estas declarações foram parcialmente confirmadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que indicou que não estão previstas execuções “no imediato”.
Apesar disso, Washington não fechou completamente a porta a uma ação militar. Trump afirmou que os Estados Unidos irão “observar” a evolução da situação. Uma formulação ambígua, sobretudo tendo em conta as ameaças feitas nos últimos dias, nas quais o presidente norte-americano evocou uma possível intervenção para pôr termo à repressão, considerada por várias ONG como uma das mais sangrentas desde a Revolução Islâmica de 1979.
Repressão maciça denunciada por organizações de direitos humanos
De acordo com a organização Iran Human Rights, a repressão já terá causado pelo menos 3.428 mortos, um número descrito como um “mínimo absoluto”. Mais de 10.000 pessoas terão sido detidas. A ONG Hengaw alertou ainda para a situação de manifestantes condenados à morte, incluindo Erfan Soltani, de 26 anos, cuja execução terá sido adiada, embora a sua vida continue em risco.
O país, com cerca de 86 milhões de habitantes, permanece sob controlo rigoroso. O acesso à internet está cortado há mais de uma semana, dificultando a circulação de informação. As raras imagens que chegaram ao exterior revelam cenas de extrema violência, com manifestantes abatidos à queima-roupa e hospitais sobrelotados.
Pressão diplomática e endurecimento regional
A comunidade internacional reagiu com condenações crescentes. As Nações Unidas declararam-se “horrorizadas”, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou estar a trabalhar em novas sanções contra Teerão. O Reino Unido encerrou temporariamente a sua embaixada no Irão, Espanha aconselhou os seus cidadãos a abandonar o país e o Qatar anunciou a retirada parcial de pessoal da base aérea norte-americana de Al-Udeid.
Do lado iraniano, o discurso mantém-se duro. O comandante dos Guardas da Revolução, Mohammad Pakpour, advertiu que o Irão está preparado para responder “de forma decisiva” a qualquer ataque. Apesar disso, as autoridades afirmam que a situação está “sob total controlo” e anunciaram julgamentos “rápidos” e “públicos” para os manifestantes detidos.
Queda acentuada dos preços do petróleo
As palavras de Donald Trump tiveram um impacto imediato nos mercados energéticos. Os preços do petróleo caíram entre 3% e mais de 5%, eliminando rapidamente a chamada “prémio de risco geopolítico” que se tinha acumulado nos dias anteriores.
O barril de WTI caiu para a zona dos 59–60 dólares, enquanto o Brent do Mar do Norte recuou para cerca de 63–64 dólares. Os investidores reduziram as apostas num choque de oferta, em particular no que diz respeito a uma possível perturbação no estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo consumido a nível mundial.
“Grande parte da tensão desapareceu de um dia para o outro”, resumiu John Evans, analista da PVM. Outros especialistas alertam, no entanto, que esta acalmia pode ser temporária, dado o contexto regional altamente instável.
Uma trégua frágil num contexto explosivo
Para além do Irão, outros fatores contribuíram para a pressão descendente sobre os preços: aumento inesperado das reservas de petróleo nos Estados Unidos, retoma progressiva da produção na Venezuela e menor risco imediato nas rotas de exportação.
Ainda assim, os mercados continuam extremamente sensíveis a qualquer evolução política ou militar. As declarações de Donald Trump ofereceram um alívio momentâneo, mas a situação no Irão permanece volátil. Num cenário destes, o petróleo continua a reagir menos aos fundamentais económicos e mais aos sinais vindos da Casa Branca.












A calmaria momentânea não deve enganar; a situação no Irão permanece explosiva. O petróleo poderá voltar a subir se as tensões ressurgirem.